Mulheres indígenas assumem lideranças no Eco-Festival do Peixe-Boi

CULTURA Cultura 31/10/2026 14:21 A Crítica acritica.com Novo Airão AM

Geyse Baré e Cassiane Lima tornam-se as primeiras mulheres indígenas a ocupar os postos de Deusa da Canção e Porta-Estandarte, respectivamente, no XXVII Eco-Festival do Peixe-Boi em Novo Airão, Amazonas, representando a resistência cultural e ambiental.

No município de Novo Airão, a 200 quilômetros de Manaus, a cultura amazônica celebra suas raízes mais profundas. O XXVII Eco-Festival do Peixe-Boi começa nesta sexta-feira (30) e vai até domingo (01). A edição destaca a arte de mulheres da etnia Baré, que rompem anos de invisibilização. Elas assumem o protagonismo para mostrar que a preservação da floresta e da memória depende da valorização da mulher indígena.

Duas figuras centrais marcam este histórico: Geyse Baré, que estreia como Deusa da Canção do Anavilhanas, e Cassiane Lima, nova Porta-Estandarte do Jaú. Pela primeira vez em suas trajetórias, essas duas mulheres indígenas ocupam posições de liderança na disputa. Elas transformam arte, ancestralidade e pertencimento em símbolos de valorização da cultura Baré e de proteção da floresta.

  • Geyse Baré é a primeira mulher indígena a ser Deusa da Canção do Anavilhanas na história do festival.
  • Cassiane Lima é a primeira porta-estandarte indígena do bloco Jaú.
  • O evento acontece entre os dias 30 e 01 em Novo Airão, no Amazonas.
  • As artistas ressaltam que suas funções vão além da dança, sendo atos de representatividade e resistência.
  • A iniciativa busca fortalecer a conexão entre a preservação ambiental e a cultura dos povos originários.

Resistência e ancestralidade nas arenas

Para Geyse Baré, ocupar o posto de Deusa da Canção (item 7) do Anavilhanas é uma honra e um ato de resistência. Ela defende que levará à Lagoa do Peixe-Boi a cultura e a ancestralidade do povo Baré. "Representar a cultura do meu povo e levar essa voz pro mundo é muito maravilhoso", afirmou Geyse. "Acredito que a minha força, a minha garra e a minha coragem, a partir das vivências que eu já tive como mulher indígena, lutando pela sobrevivência do meu povo, vai me influenciar muito na minha apresentação".

Já Cassiane Lima, defendendo o pavilhão verde e preto do Jaú, ressalta que sua ancestralidade não é apenas do passado, mas do presente e futuro do povo Baré. Para ela, o Jaú reflete a floresta. Como a primeira porta-estandarte indígena, seu papel é ser a voz do ecossistema amazônico defendido pelo peixe-boi. "Minha ancestralidade é a força que me move", declarou. "Como filha de Novo Airão e mulher indígena, eu trago no meu sangue a resistência, a sabedoria e a proteção da floresta".

Cassiane enfatiza que defender o estandarte é um ato de representatividade, não apenas coreográfico. "Pretendo entrar naquela arena com a força de todas as mulheres que vieram antes de mim. Transformando a nossa história em dança, garra e orgulho", completou a porta-estandarte.

Trajetórias construídas na base do bloco

Antes de assumir seus itens, Geyse Andrade e Cassiane Lima já estavam ativamente ligadas à cultura popular de Novo Airão. Formadas na vivência das manifestações folclóricas, elas construíram suas carreiras nos bastidores e nos grupos artísticos que mantêm viva a tradição do peixe-boi. Enquanto Geyse integrou o Bailado Verde e Branco do Anavilhanas, aperfeiçoando sua expressão artística, Cassiane acumulou experiência como item substituta do Jaú e participou de outras apresentações culturais da cidade.

"Minha caminhada dentro da agremiação é o que dá alma a minha apresentação hoje", assegurou Cassiane. "Ter vivido o peixe-boi, sentindo a pulsação da nossa Batucada e defendido a nossa Fauna e Flora, não foram apenas etapas, foram a minha escolha. Essa vivência me trouxe maturidade artística e, acima de tudo, um respeito profundo pela nossa identidade. Eu não caí de paraquedas no cargo, eu cresci aqui dentro".

Esses anos de dedicação, aprendizado e pertencimento ajudaram a lapidar as duas artistas. Elas agora chegam à arena para representar, em papéis de protagonismo, a força da mulher indígena Baré. "Quando eu visto a camisa verde e branca, eu não levo apenas o nome de uma agremiação, eu levo a história de um povo", salientou Geyse. "Levo minha avó, minha mãe, minhas tias, todas aquelas mulheres que me ensinaram a ter orgulho da minha história".

O papel cultural e ecológico na arena

Na Lagoa do Peixe-Boi, quando as luzes se acendem para o espetáculo cultural e ecológico do povo airãoense, o protagonismo entra em cena. Itens, brincantes, galera, músicos e artesãos, dos blocos Anavilhanas ou Jaú, partilham de um sentimento único em prol da defesa do meio ambiente. "Quando eu entro na arena como porta-estandarte, eu não carrego apenas um pavilhão, eu carrego a história de cada um que faz o nosso bloco acontecer", salientou a porta-estandarte. "Porque eu também estive lá na base. Essa trajetória me preparou emocional e tecnicamente para defender nossas cores com garra e com a propriedade de quem conhece e ama a nossa raiz".

A "canção" também toma conta de todos os atos da brincadeira. Para Geyse Andrade, o protagonismo da mulher indígena é pautado na luta, na resistência e na força dos povos originários. "Eu não vou cantar sobre o rio, eu vou cantar com o rio", argumentou ela. "O item de Deusa da Canção é a inspiração dos poetas, dos músicos. Esse ano eu não vou apenas representar somente os músicos e os poetas, mas sim um povo, uma cultura e uma raiz indígena".

Finalizando suas falas, a deusa da canção reforça sua identidade: "Eu não vou interpretar a Amazônia, porque eu sou a Amazônia. Sou filha de Novo Airão, cresci ouvindo botos, os rios, os pássaros, na beira do rio, respeitando o meu peixe-boi, minha cultura e minha história".