IA revoluciona tratamento de infarto ao detectar entupimento em tempo real

SAÚDE Tecnologia 27/10/2026 14:28 A Crítica / Agência FAPESP acritica.com São Paulo SP

Sistema desenvolvido por pesquisadores da USP e Suécia usa inteligência artificial para analisar o eletrocardiograma, identificando com precisão onde a artéria está bloqueada e agilizando a decisão médica para salvar vidas.

Uma nova ferramenta de inteligência artificial (IA) chega para auxiliar médicos e socorristas no diagnóstico do infarto mais perigoso, aquele que ocorre quando uma artéria do coração é totalmente bloqueada. O sistema, fruto de uma parceria internacional entre pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, e da Universidade de São Paulo (USP), analisa rapidamente os dados digitais do eletrocardiograma (ECG). Com isso, o modelo consegue detectar a obstrução aguda e, de forma inédita, indicar o local exato onde a artéria está entupida.

José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor-USP) e um dos autores do estudo, destaca a urgência: Nos casos de infarto agudo do miocárdio, as decisões precisam ser rápidas, pois cada minuto importa. Se a artéria estiver totalmente obstruída e não permitir levar o oxigênio, o músculo cardíaco morre e isso é irreversível. Por isso, o tempo é o grande definidor do prognóstico. A ferramenta de IA poderá dar mais agilidade ao processo. O trabalho foi publicado na renomada revista Nature Communications.

  • Inovação no Brasil: É o primeiro modelo de IA validado em população brasileira para identificar e localizar infartos usando apenas o ECG de 12 derivações.
  • Exame Acessível: O ECG é rápido, barato e registra a atividade elétrica do coração sob diferentes ângulos, sendo a base da análise.
  • Urgência Médica: Em infartos, cada minuto de atraso aumenta o risco de morte do músculo cardíaco de forma irreversível.
  • Segurança no Prehospitalar: A IA ajuda médicos em ambulâncias a decidir com mais segurança se devem usar remédios fortes para desentupir artérias.
  • Detecção de Sinais Sutis: O sistema identifica padrões no traçado que muitas vezes escapam à vista humana, mesmo em casos graves.

O modelo descrito no artigo é o primeiro validado especificamente para a população brasileira. Ele utiliza apenas o ECG de 12 derivações, um exame conhecido por ser rápido, acessível e de baixo custo. A ferramenta, que ainda é considerada experimental, permite reconhecer padrões complexos que frequentemente escapam à análise visual tradicional do médico. Isso pode ser fundamental para auxiliar na tomada de decisão clínica.

Decisões críticas em ambulâncias

Krieger explica que, quando o paciente não consegue chegar rapidamente ao hospital, os médicos nas ambulâncias enfrentam um dilema complexo: decidir se aplicam ou não um medicamento para desobstruir a artéria, conhecido como trombolítico. Essa medicação é vital para salvar vidas, mas carrega o risco de causar efeitos colaterais graves, como um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. A IA funciona como um classificador de alta precisão que dá mais segurança para agir quando o benefício supera o risco, afirma o pesquisador, que coordena um projeto apoiado pela FAPESP.

A expectativa é que, no futuro próximo, o sistema de IA possa analisar os dados do ECG em tempo real. Isso permitiria identificar quase imediatamente os sinais de oclusão coronariana aguda. Consequentemente, a equipe médica poderia reconhecer de modo precoce quais pacientes precisam de um cateterismo urgente, agilizando o encaminhamento para a restauração do fluxo sanguíneo, processo conhecido como reperfusão.

A dificuldade de ver o diagnóstico no papel

Identificar um infarto agudo do miocárdio e determinar qual artéria está obstruída nem sempre é uma tarefa simples. Muitos casos graves não apresentam no ECG o que médicos e cientistas chamam de supradesnivelamento do segmento ST (supra-ST), um marcador clássico no traçado do batimento cardíaco que indica o diagnóstico. Há pacientes com 100% de oclusão cujo ECG não apresenta os padrões clássicos esperados. Nessas situações, o médico precisa integrar informações clínicas, como a presença de dor torácica, exames laboratoriais para dosagem de biomarcadores cardíacos, como a troponina, e exames de imagem complementares para confirmar o diagnóstico. O problema é que, em um infarto, cada minuto conta. A IA ajuda a revelar sinais sutis que podem não ser vistos no traçado, explica Krieger.